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May-2009

Quase extinto, rinoceronte negro volta a sobreviver em Tsavo

Na entrada do santuário de rinocerontes Ngulia, o guarda-parque anota a placa do veículo e explica que devemos deixar o recinto antes das 18 horas. O santuário é um parque fortemente cercado dentro do parque nacional Tsavo. A razão é obvia: os chifres de rinocerontes valem seu peso em ouro. Seu pó é considerado afrodisíaco pelos chineses. Uma fantasia que alimenta uma matança indiscriminada de animais.

tsvo-147-web60.jpgTodas as precauções são tomadas para que a população de rinocerontes negros aumente no santuário Ngulia, localizado dentro do parque nacional Tsavo Oeste.

Calcula-se que em 1700 existiam cerca de 850 mil rinocerontes negros (de boca pontuda) na África. Em 1970, o número desceu para 65 mil. Nos anos 80, as quadrilhas armaram-se ainda melhor e, no Quênia, dizimaram todos os animais que não estavam nas áreas protegidas. O triste – e estúpido – é que os efeitos do chifre de rinoceronte são, comprovadamente, uma ilusão. Com tantos produtos mais efetivos para estimular seu apetite sexual, porque os chineses insistem em serem cúmplices de uma matança indiscriminada e ignorante?

O ano mais crítico para os rinocerontes negros foi 1995: apenas 2.410 indivíduos  sobreviviam no continente. Em menos de três séculos, 99,7% da população foi aniquilada! No ano seguinte, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) soou o alerta e passou a considerar o mamífero como Criticamente Ameaçado de Extinção. O governo do Quênia respondeu com a criação do santuário. Hoje existem quase 70 rinocerontes na reserva especial, a qual é altamente vigiada. Desde seu estabelecimento há 23 anos, Ngulia registrou um incidente de caça ilegal.

Com cerca de 70 animais em apenas 3 km2 – isso significa uma média de quatro rinocerontes por hectare ou em um quadrado de 100 metros de lado –, tudo indica que será bem fácil encontrar o tão cobiçado encouraçado. E temos quase duas horas para a caça ao tesouro. Por isso, quando vejo um grupo de girafas bebendo água, não me apresso. Os rinocerontes podem esperar, mas as elegantes donzelas não.

dsc_2467-web60.jpgTrês girafas Masai bebem água em um reservatório do santuário. Nessa posição, as girafas tornam-se muito indefesas, pois não podem se levantar em um movimento só.

Fred e eu continuamos a esquadrinhar a reserva, que tem uma forma retangular. As pistas de terra cruzam-se como ruas urbanas. Tenho a impressão que passo pela mesma esquina duas ou três vezes. Não encontramos nada. Mesmo se a vegetação é alta, um animal do tamanho do rinoceronte não deveria se esconder tão facilmente.

kimn-269-web39.jpgFred está impaciente para chegar à marca dos 30 mamíferos – o rinoceronte que havíamos visto em Nakuru era o “branco”, de lábio quadrado, uma espécie diferente dessa. Assim, o rinoceronte negro contaria como novo ponto.

Meu guia está tão impaciente que decide trocar de lugar comigo. Ele passa a explorar a paisagem lá de cima da van, enquanto eu dirijo.

Mas a estratégia não traz nenhum resultado, a não ser uma breve parada para registrar a imagem (foto ao lado) de um rolieiro de peito lilás (Coracias caudata).

O sol começa a baixar, o tempo passa cada vez mais rápido e os rinocerontes continuam escondidos. Faltam apenas cinco minutos para sair da reserva e o animal mais parecido com o gigante encouraçado é um javali ou facochero (Phacochoerus africanus). Quem não se lembra do Pumba no filme Rei Leão?

tsvo-257-web60.jpgImortalizado nas telas do cinema, o javali é um personagem constante de qualquer parque nacional.

São 18:01 e chegamos à porteira. Não vimos o rinoceronte negro no lugar que seria o mais fácil de encontrá-lo. Fred está inconformado. Ele se sente como quebrando uma promessa comigo. “Nunca aconteceu isso comigo, sempre que vim aqui consegui ver vários rinocerontes. Dessa vez só tinha girafas”, diz irritado.

Trato de consolá-lo, lembrando que ainda temos a manhã seguinte pela frente. E que as girafas renderam belas imagens. Chego a colocar a culpa na densa vegetação de Tsavo para que Fred não continue a resmungar.

De repente – e não mais que de repente mesmo – avistamos um animal deitado na beira da estrada. Fred não acredita na cena. Eu também não – e só rezo para que o movimento do carro não perturbe o bicho. Ele desliga o motor, não freia bruscamente e deixa o carro rolar lentamente até ficar quase ao lado do felino. É um leopardo! O último dos Big Five!

tsvo-106-web60.jpgO imponente animal permanece deitado durante 6 minutos e evita olhar diretamente para nós, embora esteja bem consciente de nossa presença.

Estamos apenas a quatro metros de distância do belo felino. Fotografo o animal com cuidado, sem realizar nenhum movimento brusco. O leopardo (Panthera pardus) move ligeiramente sua cabeça e seu pescoço. Parece bem cansado. Talvez tenha sido o forte calor do dia. Ou tenha tentado caçar algum antílope, sem sucesso.

Uma van se aproxima. De longe, faço sinal para que o motorista diminua a marcha. Mas ele não se dá conta do que acontece. E quando começa a frear, o faz bruscamente. O barulho do atrito das rodas sobre as pedrinhas da estrada incomoda o leopardo. Ele se levanta, dá meia volta e entra no mato. Os turistas da outra van mal conseguem ver o animal. Em um safári – como na vida –, tudo é uma questão de segundos. E de muita atenção e cuidado!

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  1. Mikael /

    Haroldo,
    Maravilhosa foto das girafas! Incrível que voce estava a 4 metros do leopardo! Ual Ual Ual. Que aflição nao poder ter visto o rinoceronte. Voltaram na manha seguinte? viram a final?
    abracos

  2. Inaê Miranda /

    Haroldo,
    Também gostaria muito de ter visto o rinoceronte. Essa questão da extinção é muito séria. Acredito até que o empenho para conscientização das pessoas deveria ser maior, assim como a necessidade de reprodução assistida ou algo do tipo para tentar recuperar o que foi perdido. O que mais incomoda nessa barbárie toda da matança é o motivo. Tão fútil, tão banal!!!
    Mas fiquei muito feliz em ver a foto do big five, tomando uma fresca, mas sem vacilar na atenção. Atento a tudo. Lindo, forte!!! As girafas, fazendo pose, estão magnificas! Parabéns!!!

  3. NILSON DE SOUZA RODRIGUES /

    Muita curiosidade em saber porquê o Brasil não tem (ou será que já tem?) um macho e uma femea do rinocerante negro, participando assim com o esfôrço de manter a espécie com sua procriação em cativeiro. Isso é de responsabilidade mundial, não apenas do seu país de origem. Nós os receberíamos muito bem, com tôda certeza.

  4. Philipe /

    Ae, ta escrito “Cifre” na pagina principal da globo.com.
    Isso que da mandar os estagiários filhos da p* fazerem o serviço eauheiuahueia.

  5. Manoel Geraldo Schott /

    Deus fez as coisas tão perfeita, ai vem a ignorância do homém e quer destruir a perfeição.
    O que tem haver o chifre do pobre animal, com os impotentes?

  6. silvio /

    Kd o rinoceronte:??? pow li o texto pq pensei q iria ver alguma foto nítida… pfffzzzzz

  7. Ricardo /

    infelizmente isso e muitas outras coisas acontecem por causa do dinheiro

  8. Renata /

    Q invjaaaaaaaaaaaaa!!! Nossa naum viu o rinoceronte, mais com certeza viu coisas q valem mto a pena!

  9. Ricardo /

    acho que se houver punição, os crimes diminuirão com certeza. se matarem para o comércio idiota da venda de chifres, precisam ser punidos à altura, a mais dura pena: Olho por Olho e Dente por Dente! está aí a minha opinião. além de ser um ADVOGADO, fico revoltado com esses e outros crimes banais sem uma punição!

  10. HAROLDO CASTRO /

    RESPOSTA AO NILSON: Os zoológicos de Itatiba e de São Paulo têm Rinocerontes Brancos, mas não Negros. Na verdade, a melhor solução para conservar a espécie é o esquema existente no Santuário Ngulia, no Parque Nacional Tsavo Oeste. Os animais estão em liberdade no seu habitat natural, têm mais chances de procriar (a população vem aumentando a uma proporção de 6% ao ano) e estão fortemente vigiados para que nenhum caçador ilegal mate um animal e corte os chifres para vender. Na África do Sul, também existem experiências semelhantes. HC

  11. HAROLDO CASTRO /

    RESPOSTA AO SILVIO: No mato é assim mesmo, uma questão de “sorte”… Tínhamos todas as chances a nosso favor para ver o Rinoceronte Negro e não vimos! Já no parque Nakuru (link abaixo), nessa mesma viagem ao Quênia, fotografei o Rinoceronte Branco – ele é bem parecido e poucos sabem reconhecer a diferença. HC
    http://colunas.revistaepoca.globo.com/viajologia/2009/04/16/quenia-mega-fauna-africana-ao-redor-do-lago-nakuru/

  12. HAROLDO CASTRO /

    RESPOSTA AO MANOEL GERALDO: Porque os chineses pensam que o chifre do rinoceronte (de qualquer espécie) é bom para o desempenho sexual? A principal razão seria mesmo o símbolo fálico que o chifre representa: ele é duro, ereto e pontiagudo. Outra possibilidade é o fato que o chifre do rinoceronte é rico em cálcio e fósforo, dois minerais cuja falta pode levar ao cansaço e a fatiga. Ou seja, doses maiores de cálcio e fósforo poderiam aumentar a vitalidade. Mas muitos outros produtos, bem mais fáceis de encontrar do que um chifre de um animal selvagem, também possuem essas características, como gérmen de trigo com iogurte. Em tempo, os chifres de rinocerontes também são usados, no Iêmen, para a confecção do cabo de adagas (facões). HC

  13. Danilton Boaventura /

    pena que nao viu o rinoceronte, mais msm assim valeu a pena a natureza, linda e deve ser preservada …

  14. vania /

    Vc eh o fotografo que escolhi pra “ler as cores”… lah do fundo do coracao .. Vc eh unico. vv

  15. Juliana Velloso /

    A foto das girafas foi um belo presente!!!

  16. Marcelo /

    … LOS CHINOS SON LOS RESPONSABLES POR LA EXTINCION DE MILES DE ESPECIES,, LA VERDAD YO LOS ODIO!!!

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