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04
May-2009

Amboseli: papo na comunidade Maasai e a surpresa do rei leão

A partir das 11 horas da manhã – por mais bonito que seja o parque nacional – o calor pujante e o sol a pino fazem que qualquer safári passe por um intervalo obrigatório. A luz é péssima para fotografar, os animais parecem estátuas e as paisagens revelam-se medíocres. Não há outra opção, é preciso descansar. Fred quer me levar ao restaurante de um hotel de luxo de Amboseli, mas opto pelo barzinho do acampamento público, ponto de encontro dos nativos Maasai que moram dentro da reserva. No estacionamento, não vejo nenhuma van de turistas. Concluo que o refrigerante vai chegar morno. Acerto em cheio.

Sou o único musungu (homem branco) na choupana e a primeira abordagem é comercial. Os Maasai não perdem uma oportunidade para vender artesanato. Desconverso e prefiro desafiar o mais extrovertido em uma partida de sinuca. Quem perde, paga as bolas. No final, ganho uma e perco duas. Mas o diálogo é estabelecido. A seleção do Brasil continua sendo um ponto de referência e os Maasai transferem para mim a simpatia que eles têm pelo Ronaldinho ou Kaká. A conversa descontraída aborda os mais variados temas: de conservação da natureza a práticas sexuais. (Sou informado, por exemplo, que sexo oral não entra no cardápio Maasai). O próximo passo é o óbvio: sou convidado a visitar o vilarejo, a 15 minutos de caminhada do acampamento.

absl-641-web60.jpgO vilarejo Leshalei foi construído em forma de um enorme círculo. As portas de entrada de cada residência criam um desenho peculiar.

Como o vilarejo Maasai está em pleno parque nacional, onde predadores vivem soltos, a principal preocupação dos nativos é com a segurança da comunidade. As casas foram construídas em círculo, lado a lado, e as paredes externas formam um cinturão de proteção. Penetramos por uma porta estreita. À noite, essa entrada é fechada: galhos espinhosos bloqueiam a passagem de eventuais invasores de quatro patas. Uma vez dentro do vilarejo fortificado, entendo a configuração.

absl-749-web42.jpgTodas as atividades, incluindo o tradicional intercâmbio vespertino entre mulheres, acontecem no interior desse enorme ambiente fechado. Uma jovem, à sombra de uma acácia, separa as contas coloridas que serão usadas para elaborar colares e braceletes. O rebanho de cabras da comunidade também tem um espaço reservado, protegido dos chacais e das hienas.

Joseph me convida para entrar em uma das casinhas. A porta (que não chega a 1,50 metros de altura) não combina com as características físicas dos Maasai, que são longos e esguios. Não apenas preciso me abaixar para não bater a cabeça, como devo entrar girando e dando uma meia volta completa, pois a entrada tem a forma de um ‘U’. O resultado é que, dentro da casinha minúscula, quase não entra luz. Para os Maasai essa escuridão significa um momento de descanso, em um local fresco e fora do alcance dos raios solares. Mas, para mim, o repouso na obscuridade parece ser tempo perdido. Meu anfitrião percebe que não me sinto confortável no cubículo escuro e me convida a sair. Ele vai me mostrar porque os Maasai não precisam de fósforos.

absl-742-web60.jpgOs Maasai continuam, até hoje, a produzir seu próprio fogo em apenas um par de minutos.

Com apenas dois pedaços de madeira e muita força para criar a fricção necessária, Joseph gera uma pequena bolinha de serragem queimada. Esta é colocada delicadamente entre um pouco de palha seca. O sopro na medida certa fará que o fogo se propague, dispersando uma leve fumaça branca. Agora basta mantê-lo acesso.

São quase 3 horas da tarde e meu foco logo voltará a ser os animais do parque. Mas antes de sair do vilarejo, regresso à “praça central”, onde as mulheres da comunidade se reúnem. Se os homens geralmente vestem tecidos entre os tons vermelhos e azuis, as mulheres empregam uma gama de cor muito mais rica. Embora o vermelho ou o laranja forte estejam sempre presente, elas usam ao menos dois ou três panos adicionais para envolverem seus corpos magros e elegantes.

absl-677-web60.jpgAs mulheres Maasai de Leshalei utilizam as mais variadas cores nas suas vestimentas. Seus colares e braceletes são montados com centenas de contas multicoloridas.

O tempo virou e um vento chega trazendo poeira. A visibilidade é agora ainda pior do que antes. O Monte Kilimanjaro está mais escondido. Não é hoje que vou conseguir uma bela foto da montanha. Me conformo com a ideia de que a manhã havia sido proveitosa, com o belo espetáculo dos elefantes.

Fred quer sair logo do parque e ir até Loitokitok, vilarejo aos pés do Kilimanjaro e na fronteira com a Tanzânia, onde passaremos a noite. Com muita lábia, convenço-o a dar uma última volta no brejo de Olokenya. Afinal, vimos apenas três mamíferos novos em Amboseli: um chacal, um grupo de macaco Vervet e um casal de esquilo, perto do acampamento Maasai. Estamos na marca dos 25 mamíferos, mas agora está cada vez mais difícil observar algo diferente.

A paisagem do brejo continua linda, mas nada de novo. Quando penso em guardar as duas câmeras fotográficas, grito a palavra mágica STOP. Fred, dessa vez totalmente desatento, freia o carro e pergunta a razão. Eu apenas aponto para um animal que bebe água às margens do charco. É um leão: gordo e grande. Ficamos a poucos metros do animal durante 7 longos minutos. Dá tempo de ele posar para a foto como um verdadeiro rei e, depois de cruzar a estrada a nossa frente, esvaziar seu intestino… Um belo presente de despedida de Amboseli. Obrigado!

absl-910-web60.jpgDepois de beber água, o leão farto (sua última refeição deve ter acontecido pela manhã) levanta-se, caminha até a beira da estrada e faz uma bela posse, sem precisar encarar o fotógrafo.

absl-927-web60.jpgO rei cruza a estrada, encontra um lugar para sentar e decide evacuar parte de seu último banquete.

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 likes / 12 Comments
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  1. Rosi Cheque /

    Oi Haroldooooo. Não sei dizer o que mais me encanta neste blog: fotos ou texto. As fotos sempre tão emocionantes, coloridas (parecem que falam com a gente!). O texto? O texto rico na literatura e gramática. O uso de tempos verbais e de orações simples, as flexões substantivas usadas com graça, as combinações das palavras escritas de maneira leve, a concordância ideológica e, principalmente, o uso corretíssimo das orações subordinadas. Tudo aqui é lindo, é leve, é mágico, é gostoso (parabéns). Tomara que outras pessoas possam ter o prazer de não só ver ou ler o texto, mas tbm observar e estudar cada parágrafo, cada palavra, cada vírgula e cada ponto. Grande abraço (Rosi Cheque – jornalista e professora de literatura / SP, Brasil).

  2. Mara Barros /

    Linda a foto das mulheres! Porque o fotógrafo é ótimo e porque elas são lindas mesmo. Quanto ao momento da intimidade do rei, se ele pudesse, te processava.
    Bjs

  3. Flavia A. /

    Fiquei curiosa com essa configuração das moradias dos Massai. Você vai fazer mais algum blog sobre isso?

  4. carolina /

    Adorei as fotos que mostram as vestimentas Massai. De fato essas mulheres são muito elegantes.

  5. ELIZABETH SIGOLI /

    QUERIDO HAROLDO
    QUE PRIVILÉGIO CONHECER ESSE POVO COLORIDO, EMBORA SOFRIDO!
    SETE MINUTOS CONTEMPLANDO O LEÃO É UMA DÁDIVA MAJESTOSA!
    E QUE BENÇÃO A DE PODER COMPARTILHAR CONOSCO ESSAS MARAVILHAS!
    PARABÉNS TAMBÉM PARA ROSE CHEQUE, QUE FEZ UMA ANÁLISE PERFEITA DE SEU TEXTO PRECIOSO!
    ATÉ MAIS, AMIGÃO…
    BETH SIGOLI

  6. Juliana Velloso /

    Impressionante, Haroldo, a comunidade, a forma como vivem, sobrevivem! Adoro! Como essas culturas resistem. Sobreviventes desse nosso mundo globalizado, internacionalizado, onde peculariedades sócio-culturais acabam se perdendo para padrões considerados melhores(pra quem??). Gostei do relógio no meio do visual original do seu amigo Maasai!! = ) E o Rei da Selva então!?Suas experiências sempre me dão estímulos entre uma pausa entre um texto e outro!! Adoro acompanhar suas aventuras! beijos

  7. Daniela Evaristo /

    Caro Haroldo.
    Adorei ter conhecido seu blog. Sou jornalista e fotógrafa e achei aqui um livro eletrônico de experiências. Vou acompanhar sempre suas postagens.
    Abraços

  8. Inaê Miranda /

    Caro Haroldo,

    Que mulheres lindas, com sorrisos alegres e cheios de encanto! O lugar parece singelo; as pessoas, apesar de toda simplicidade do modo de vida, parecem ser muito felizes. A cultura é muito original e rica. As sandálias artesanais, as pulseiras, os colares e os tecidos coloridos… embelezam ainda mais os maasai. As fotos? Elas simplesmente revelam a alma do lugar! Parabéns e obrigada por nos proporcionar essa grande riqueza!
    Abraço

  9. Anonimo /

    Hi, interesting post. I have been thinking about this topic, so thanks for blogging. I’ll probably be coming back to your blog. Keep up great writing

  10. Nancy /

    Querido Haroldo,
    Impressionante a naturalidade e simplicidade desse povo. Inacreditável que ainda sobrevivam sem o contágio da “tecnologia”. Suas fotos documentam bem isso. Gostei muito de conhecer esse povo, que apesar de viverem aparentemente só com o básico, possuem uma postura realmente elegante. Beijos, Nancy do Rio

  11. Artemisia /

    Boa essa historia com o povo Maasai.
    Adorei as fotos do vilarejo e do Rei Leão!
    Obrigada,,,, adoro viajar nesse blog.

  12. Reonnenensins /

    I enjoyed reading your blog. Keep it that way. peifxawkydnvllnp

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